Eis que, no processo de terminar um projeto de pesquisa que pode ou não significar minha carta de alforria, perco completamente o foco e não consigo pensar em como realizar algumas mudanças necessárias para torná-lo, de fato, em um projeto digno de ser selecionado. Como em pelo menos dezesseis outras vezes, retorno aqui e vejo se este lugar escondido na internet serve como repositório de pensamentos paralelos, um lugar onde eu consigo pelo menos expor outras ideias sem algum compromisso maior. Em um momento anterior, escrevi qualquer coisa sobre uma prática comum de confundir o preciosismo conceitual com precisão conceitual. É hora da segunda parte, onde a prática cotidiana solapa qualquer necessidade de coerência teórica em favor de uma necessidade imediata de ação. Estou falando, é claro, da salada mista em que transformaram a psicologia submetidas às exigências médicas e às exigências do SUS.
Digo isto porque, em meio a uma reunião com a equipe de apoio vinculada a um CAPS, fui desperto do meu tédio de me encontrar naquele lugar por uma frase que mais ou menos serve de símbolo para o problema: “[A pessoa] age apenas sobre o princípio do prazer; o que é necessário fazer nesta ocasião é justamente algo parecido com a prática pavloviana de adestramento. Sabe como? Reforço positivo e negativo!”
Boa, campeão! Tirando a parte obviamente ofensiva da frase toda, tendo em vista todo o contexto hipócrita que é a marca mais gritante da chamada “reforma psiquiátrica”, podemos localizar pelo menos duas raízes epistemológicas distintas e completamente opostas na sentença acima. De um lado, temos o princípio do prazer “freudiano” (na verdade não necessariamente freudiano neste contexto específico, uma vez que já virou um termo corrente como “inconsciente), e do outro o cachorro de Pavlov, fazendo sua mágica aparição, com seu sininho e tudo mais. Não adianta, obviamente, ficar discutindo as minúcias da besteira dita, até porque nem adianta querer mudar algo que não é necessariamente engendrado pelo profissional. Isto é, embora o profissional se utilize da psicologia salada de frutas em sua prática e influencie a mesma, acredito que na maioria dos casos é a prática que engendra uma psicologia salada de frutas.
Por quê?
A resposta é mais ou menos simples: porque a prática é uma merda e exige do profissional respostas rápidas, voltadas à maior eficácia possível. Imagine um psicólogo no CAPS (ou em outro arremedo de local destinado à “saúde mental”). Agora imagine o psicólogo sendo obrigado a tratar de pessoas com problemas crônicos que vão bastante além daquela neurose básica que fazem socialites pagarem uns 500 reais por hora para algum lacaniano mercenário. Imagine então o psicólogo sendo obrigado a dar conta de um número cada vez maior de pacientes com este mesmo perfil — psicoses fodidas, acompanhadas ou não de danos cognitivos extremamente debilitantes. E, finalmente, imaginemos que há uma subordinação direta com relação ao modelo médico vigente, baseado na medicação constante e na visão da saúde mental como uma higiene mental.
Isso sem contar que o pagamento é uma bela bosta.
E o que temos? Temos profissionais cada vez mais cobrados no sentido de serem eficazes dentro de um modelo que está se lixando para o sofrimento daqueles que têm a infelicidade de frequentar o lugar, realizando atividades “sócio-educativas” que na prática nada mais são do que maneiras de enganar os pacientes, a sociedade e a si mesmos com um “trabalho bem feito.” A eficácia acaba entrando no caminho de uma conduta profissional coerente. O orçamento é curto, sabemos. Os remédios também auxiliam, na medida em que dão conta daqueles sintomas mais incômodos que revelam o sofrimento verdadeiro, ocultando-o sob a máscara de “estar tudo bem, já que não surto há meses.” Por isso digo que existe uma relação de igualdade entre o que se entende por saúde mental com higiene mental. Está tudo limpo, esterilizado já que aquela despersonalização incômoda já não existe mais. Claro, a pessoa X fala meio arrastado e tem alguma dificuldade em sentir alguma outra emoção ou de ir ao banheiro direito, mas pelo menos ele não quer quebrar tudo — e ainda me deixa em paz, aceitando colorir uns xerox durante algumas horas na semana.
Ao submeter-nos ao modelo médico, podemos afirmar que não é apenas o paciente que se torna dependente dos medicamentos prescritos. Nós também nos tornamos dependentes, pois desaprendemos a pensar psicologicamente nesses infelizes que frequentam a tal da rede de saúde mental. A salada mista epistemológica auxilia nesse processo de esquecer o que aprendemos (se é que aprendemos), isto é, que não importa a nomenclatura que damos a um tipo específico de sofrimento psíquico, pois sofrimento é sofrimento antes de mais nada. Ao colocarmos a eficácia acima de tudo, colocamos uma barreira entre nós e esse conjunto de expressões “mórbidas” que procuram seu lugar neste “real”. Nada mais fácil então do que medicar alguém até que só reste o cachorro pavloviano mesmo, adestrável e que não reclama muito de ficar colorindo uns desenhos ou que percebe que está sendo enganado pelo discurso falsamente emancipatório da reforma.
Não nos enganemos. Já está mais do que na hora de parar com isso.