Vou aproveitar e, ao invés de dar continuação ao último post, adicionarei um breve interlúdio. Interlúdio este que não deixa de dar continuidade ao que foi discutido, mas adentra uma esfera um pouco mais pessoal e, no último ano, mais problemática.
Trabalho em uma ONG. Minha função é a de “referência terapêutica” ou “psicólogo referência” em uma residência terapêutica mantida por esta ONG a serviço da prefeitura municipal de Curitiba. Desde o primeiro momento que soube da função, através de uma amiga, sabia que o trabalho é um beco sem saída. Ao contrário da lógica hierárquica de uma empresa, meu cargo é o primeiro e o último na linha hierárquica. É o típico trabalho que serve mais para fornecer experiência a outra função futura, ou pelo menos algum tipo de experiência dentro das possibilidades de se trabalhar como psicólogo em Curitiba. Em resumo, é aquele trabalho que você entra já pensando em como sair dele.
A residência terapêutica existe para amparar os ex-asilados dos hospitais psiquiátricos de Curitiba. Aqueles que se encontravam morando nos hospitais, mediante a aprovação da lei que deu início à reforma psiquiátrica, foram retirados de seus leitos no hospital*(1). Os que ainda tinham família, foram em sua maioria reinseridos no contexto familiar. Os outros cujas famílias não tinham condições financeiras ou psicológicas, ou que já nem tinham mais família, foram realocados para as residências terapêuticas. Nestas residências, até oito ex-asilares moram em graus variáveis de autonomia, dependendo do estado clínico e psicológico de cada morador. Por uma coincidência ou não, cada residência apresenta um conjunto mais ou menos uniforme de estados clínicos e psicológicos que imprimem a cada uma dessas casas características próprias. No caso da residência onde eu trabalho, pode-se dizer que o nível de comprometimento é médio.
Minha função inclui várias atividades e poucas delas na verdade têm a ver com psicologia. Faço as compras do mês, cuidando para que o total gasto em alimentação não exceda o valor de R$1.150,00 por mês. E não é exceder mesmo. Nem um centavo a mais ou a menos. Isso sempre tomando cuidado para que os sete moradores da residência terapêutica consigam ter uma alimentação balanceada, rica em alimentos de qualidade, com uma boa variabilidade de cardápio suficientemente boa para que os moradores não enjoem da comida. Isso e sempre levar pelo menos um dos moradores junto para ajudar (leia-se: atrapalhar, uma vez que a grande maioria tem um controle de impulso bastante pobre, o que já rendeu momentos memoráveis no supermercado, com direito a lágrimas insanas e tudo mais).
Outra função é o controle de medicamentos de cada um dos sete moradores. Sou eu quem conversa diretamente com os médicos afim de relatar melhoras, queixas, adivinhas necessidades e realizar acompanhamentos quando a necessidade se apresentar. Como são todos psicóticos crônicos (pelo menos no papel), a quantidade de remédio é enorme, e meu trabalho é fazer com que não falte sequer uma pílula no mês, caso contrário é instaurado um verdadeiro estado de pânico. Pela quantidade de medicamentos, e devido ao fato do SUS não disponibilizar todos os medicamentos na Unidade de Saúde mais próxima, a Semana que Obtenção de Medicamentos é sempre uma semana muito divertida, pois isso inclui a realização de viagens ao redor da cidade para obter tudo que a casa precisa.
Mas não pára por aí, é claro. Todos eles tomam banho, e aparentemente eu tenho que ajudar no banho também, mesmo que nas outras quatro residências terapêuticas meus colegas não tenham essa função. É sempre divertido e estou quase me acostumando a ficar com meus sapatos molhados o dia inteiro. Tenho também a função de acompanhar a alimentação deles, auxiliando os moradores para evitar o excesso de comida (são ótimos de garfo, com certeza, mas tenho minhas dúvidas se alguns sentem o gosto da comida, pois é sempre tudo muito rápido, que nem um acidente de carro). Nessa hora em especial é que conseguimos ver o quanto a rotina de hospital, internalizada por muitos deles por pelo menos 15 anos (no mínimo) está presente. Gosto de brincar que o almoço na residência terapêutica começa às 12:00 e termina 12:05 e muitas vezes nem é brincadeira. Muitos ainda sofrem de tamanha compulsão que não conseguem parar até que toda a comida acabe, mesmo há muito satisfeitos. Com esses moradores em especial, não raro a pessoa a cargo de impor certos limites (no caso, eu) pode ser (e muitas vezes é) confundido com alguém mesquinho.
Além de cuidar de todas as despesas da casa, de escolher a comida, de acompanhar o histórico médico de sete pessoas, de controlar a alimentação de pessoas que sofrem de compulsão alimentar associados a limitações cognitivas, é necessário também cuidar para que estejam bem agasalhados e vestidos de forma adequada. No hospital era comum que ninguém tivesse roupa própria devido a furtos e à preguiça dificuldade em manter um inventário organizado de pertences pessoais dentro das alas psiquiátricas. E não se trata apenas de ir em uma loja qualquer e escolher e comprar as roupas. Claro que não! O morador deve ir junto, mesmo que na maioria dos casos ele não saiba que talvez uma bermuda no meio de um inverno rigoroso seja uma ideia ruim. Mas isso na verdade nem é tão ruim assim, até porque é divertido — o que não me impede de reclamar disso.
Tenho ainda outras funções na casa. Tenho que tomar nota da condição física e relatar aos responsáveis que realizem pequenos consertos(ou grandes consertos, como é o caso de uma goteira persistente em um dos quartos). Nesse caso, é mais apropriado dizer que minha tarefa constitui em lembrar semanalmente à prefeitura que a casa continua com os mesmos consertos a serem realizados desde que eu os requeri, há uns nove meses atrás. Também sou eu quem precisa dar os limites e auxiliar as escravas*(2) cuidadoras no relacionamento dos moradores entre si e com outras pessoas. Sou eu quem dou o limite que outros talvez não dariam, seja por medo ou por desconhecer a situação única que fizeram deles asilados em hospitais psiquiátricos em primeiro lugar.
Tudo isso demanda tempo e atualmente trabalho 40 horas por semana para dar conta de tudo o que precisa ser feito. Claro, por nove meses trabalhei sem contrato para a ONG como “autônomo” com 20 horas semanais (que magicamente sempre se transformavam em 30 horas, veja só). Mas a questão de contrato ou não, da idoneidade da ONG ou não, de ONGs em geral passarem a perna ou não para aqueles que trabalham pra ela ou não são assuntos para um outro dia. o que interessa por enquanto são questões mais concretas e menos… reflexivas. Fui registrado em Maio, e desde então fui ameaçado duas vezes de ser demitido e me foi sugerido por outra profissional da “rede” de saúde mental que talvez fosse uma boa ideia procurar outro trabalho.
Aqui cabe a pergunta: “Mas você tem deixado de fazer todas as tarefas do seu trabalho? Está faltando comida, medicamento, roupa, interação social? Estão doentes? Não estão sendo acompanhados por médicos? Suas necessidades não estão sendo atendidas?” A resposta, surpreendentemente, é não. Na verdade, trabalho mais do que os outros referências. Nenhum outro referência acompanha o banho, por exemplo. Ou acompanha as consultas médicas. Não que não trabalhem bastante, porque quem conhece sabe que todos trabalham demais, e são todos muito competentes no que fazem. Mas chega uma hora em que eu me questiono do por quê ter recebido pelo menos duas ameaças e uma leve “sugestão”. A conclusão é que de minha atuação é falha — não como qualquer profissional comete pequenos erros aqui e ali, mas algo maior, grande o suficiente para ser desligado da função ou ser melhor em uma outra função que não seja esta em que venho atuando.
Desde que eu entrei na casa, todos os moradores têm apresentado uma maior autonomia. Onde antes todos só poderiam sair acompanhados, já temos alguns que saem sem o auxílio de ninguém. Se antes não tinham roupa suficiente, hoje estão todos bem vestidos com roupas de qualidade escolhidas por eles mesmos. Até ano passado, as compras acabavam antes do mês terminar; hoje a comida é suficiente para que possamos planejar as compras com antecedência sem a necessidade de ficar economizando alguns alimentos, como a carne e o leite — o consumo deste último aumentou de duas caixas para cinco no mês, tamanha foi a reorganização que eu empreendi para que houvesse comida para todo mundo. Nunca a casa foi mais movimentada, nem nunca a saúde de todos foi melhor. Mas isso não é suficiente, pois aparentemente fazer o meu trabalho não é suficiente. Mencionei também que, além das 40 horas, eu preciso ficar sempre com o telefone do lado e pronto para me deslocar em direção à residência caso aconteça alguma emergência? Já aconteceu, inclusive. Em pleno feriado, durante a noite. E nem feriado eu posso emendar (por opção da ONG mesmo). Aparentemente, além de fazer tudo isso ainda precisam (e ao mesmo tempo não precisam, como já me deixaram claro) que eu auxilie no acompanhamento psicológico dos moradores. Explico: quando perguntei se seria responsável por este acompanhamento, me disseram que não. A “rede” cuidaria disso, mais especificamente a equipe no CAPS frequentado pelos moradores. Mas ao mesmo tempo, a equipe do CAPS que os moradores frequentam espera que seja eu quem realize o acompanhamento psicológico dos moradores, enquanto na prática eles meramente supervisionam o andamento de qualquer tipo de “tratamento” que eu possa tirar da minha cartola de mágico. Então tenho e não tenho autonomia para trabalhar como psicólogo na casa; ao mesmo tempo que a cobrança da ONG para que eu respire a todo momento o ar da residência terapêutica não me possibilita um momento de descanso (necessário para a sanidade mental de qualquer pessoa que esperam que permaneça 40 horas por semana convivendo com loucos). Talvez seja necessário para a ONG justificar os milhões que me pagam hahaha*(3).
O complicado de tudo isso é me sentir um incompetente mesmo sempre realizando todo o trabalho que a minha função requere, inclusive aceitando pedidos “gentis” (minha chefe nunca manda você fazer nada, mas sempre pede “por gentileza” para que eu faça algo que ela sabe não ser minha obrigação) que eu sei muito bem não ter nada a ver com a minha função ou minhas obrigações dentro do meu trabalho. Acho interessante imporem, pela própria natureza da função, que eu seja um trabalhador braçal, mas com sofisticação técnica e, mais importante, paciência infinita. A “rede” de que falam tanto os teóricos e defensores do sistema atual só pode ser isso mesmo, pois tem tantos furos que não cobre nem de longe as necessidades reais daqueles que dela dependem. Como todo serviço público no Brasil depende muito mais de saber navegar politicamente do que pelo trabalho realizado, acabo por testemunhar muito mais esforço em se desvencilhar do trabalho e direcioná-lo a outra pessoa do que auxiliar na proposta, sempre com a cara de pau muito bem besuntada de óleo.
E o pior, talvez, ainda tenha ser que escutar a seguinte frase: “Não importa se você ganha bem ou mal, se você faz um bom serviço ou não, ou se o seu trabalho não oferece nenhuma qualidade de vida. Você tem sorte de estar trabalhando.”
Muito obrigado!
_____________________________________________
*(1): Leia-se: os subsídios federais para manter os leitos dos asilados em hospitais psiquiátricos foram retirados e realocados conforme as residências terapêuticas foram sendo preenchidas. Teoricamente, o dinheiro que sustentava o leito foi direcionado para as residências terapêuticas.
*(2): Até segunda ordem. Se você não acha que ganhar R$570,00 ao mês trabalhando 12 horas por turno não é escravidão, mande seu currículo para mim. Temos vagas!
*(3): Milhões se traduzem pelo piso salarial de um psicólogo trabalhando para a prefeitura municipal de Curitiba, sem hora extra, vale-refeição e apenas o mínimo dos benefícios previstos na lei. A lei aqui sendo utilizada de maneira aberta, uma vez que eu trabalhei sem nenhum contrato por 9 meses, podemos pensar que nem todas as leis valem se você tiver uma ONG, especialmente aquela no que diz respeito aos direitos dos funcionários por ela contratados, autônomos ou não.