(Parte 1).

Desde que eu me formei, pareço ter criado uma certa aversão a escrever. Hoje sou psicólogo e meu trabalho requer que eu escreva muito pouco, mas minhas aspirações — se quiser um dia realizá-las — exigem o contrário. Dei uma breve relida neste lugar e o percebi melodramático demais. Os posts mais antigos então tornaram-se privados, mas não deletados. A internet nunca esquece, é o que dizem, e é necessário manter o que já se foi, mas em um lugar que já não é mais este. O nome que eu escolhi serve a muitos propósitos, o melodrama sendo um deles. E se quero vir um dia a escrever direito, talvez seja hora de usar os outros propósitos cabíveis ao nome que escolhi (em cima da hora, num impulso) para pelo menos reverter essa situação; um misto de preguiça, vergonha e arrogância que me impedem que colocar qualquer coisa no papel.

Falar sobre psicologia, em seu estado atual, é falar pretensiosamente. A psicologia e os psicólogos podem ser extremamente pretensiosos. E é necessário não ter nenhuma dúvida: a maioria o é. A linguagem própria das várias escolas dá margem a isso, assim como a falta de noção da maioria dos profissionais parece dar margem para que existam apenas dois tipos de psicólogos em Curitiba (salvo raras exceções): os pretensiosos que fazem do jargão obscuro seu dialeto secreto, e o resto que prefere uma salada de frutas epistemológica para se manter trabalhando (e ganhando uma miséria). O segundo caso é bastante triste e comum, mas só me incomoda na medida em que queima a cara daqueles poucos psicólogos que não se encaixam em nenhum desses dois grandes grupos; o primeiro me incomoda mais, porque a atitude utilizada para esconder a incompetência acaba por alienar grande parte do público que pode entender que psicólogo só se comunica através de glifos e sabe mais do que realmente sabe. Por isso, é este primeiro grupo o mais perigoso.

O primeiro caso é bastante evidente nos círculos acadêmicos, geralmente composto por estudantes da graduação e pós-graduação que parecem ter acabado de se converter a uma nova religião. Gosto de citar principalmente os psicanalistas, talvez os mais fáceis de encaixar em algum estereótipo da pretensão. Divididos em várias tribos, os psicanalistas pretensiosos soam como artistas frustrados ou pretendentes a artistas. Tomam para si a “psicologia profunda” e a encarnam; olham para você como se conseguissem enxergar as profundezas da alma de alguém assim como os mais pervertidos segredos. Aliás, as duas coisas acabam sendo uma só, pois é nas profundezas onde necessariamente se encontram esses tais segredos, e estes são sempre pervertidos de alguma forma ou de outra. São aqueles que nunca conseguem responder nada diretamente, sempre respondendo a uma pergunta com outra pergunta, ou dando a entender a uma terceira possibilidade (sempre pautada naquele segredo profundo e pervertido). Partem do pressuposto duplo de que o inconsciente é a princípio desconhecido e ao mesmo tempo segue uma lógica previsível, portanto passível de ser conhecido. Se fosse só isso, tudo bem. O problema vem da pretensão que muitos apresentam ao agir como se já conhecessem aquilo que não conhecem — se este segue uma lógica, e esta lógica é sempre a mesma, então podemos pular um passo e sinalizar justamente o conteúdo lógico por detrás de qualquer intenção consciente. Ou algo assim, é bastante confuso, uma vez que o interlocutor pode facilmente se perder entre o labirinto de jargões por onde muitas vezes se esconde uma inépcia em realmente perceber ou escutar.

É muito fácil falar em jargões e se esconder por trás de um sistema pronto de pensamento. Nenhum sintoma é mais difícil de se contornar do que a racionalização excessiva, pelo menos na minha opinião, e a utilização de palavras prontas e interpretações fáceis serve o mesmo propósito. Um sistema dito racional para entender tudo aquilo que se apresenta como irracional serve apenas para deformá-lo, reduzi-lo a um produto racionalizado, pronto e acabado. Mas quem presta atenção suficiente sabe que tentar explicar algo de forma racional e a partir de certos pressupostos prontos acaba apenas por deformar e subtrair o próprio fenômeno que se deseja explicar. Neste sentido, explicar e entender acabam por tomar caminhos separados, uma vez que para transformarmos algo arbitrário, irracional, opaco e ambíguo em algo deliberado, racional, transparente e claro também implica em deformar a própria natureza daquilo que tentamos explicar. Ao racionalizar, perdemos aquilo que está ao nosso alcance, esquecemos da lógica (ou a falta de lógica) própria do nosso próprio psiquismo porque nossas defesas contra o irracional estão já muito bem assentadas.

Posso falar por mim mesmo. Racionalizar, tornar lógico, debater-me para encontrar um fio por onde começar a racionalização é muito mais confortável do que viver de forma irracional. Uma atitude perigosa e dispendiosa, mas comparativamente mais fácil. Para verificar isso, basta recorrer às interpretações correntes, seguindo o modelo freudiano de interpretar obras de arte, hoje em dia aplicadas a qualquer tipo de produto midiático, desde as redes sociais aos filmes, obscuros ou não, que fazem sucesso (ou não) por aí. Na maioria das vezes, o conteúdo se perde e qualquer trama cinematográfica ou moda se reduz a um conjunto mínimo de fatores que explicam qualquer coisa. Já vi debates em redes sociais onde se procurava encontrar qual patologia era retratada neste ou naquele filme. Este tipo de olhar patológico é extremamente cansativo e pouco serve para uma verdadeira compreensão de um dado fenômeno. Se no começo da psicanálise Freud era acusado de ser demasiado cientificista, entendendo sua obra como pertencendo ao lado de outras especialidades médicas, hoje o caso é o contrário, não menos devido à prevalência de outros modelos científicos. Hoje psicanálise é arte, e isso permite uma espécie diferente de arbitrariedade, não menos perigosa: a da univocidade da interpretação e vivência estética, retirando da obra seu valor e o colocando no olhar “especialista” do psicanalista pretensioso. Afinal, ele detém o poder oracular de desvendar aquilo que jaz por trás da imagem, o único treinado para enxergar através da película e diretamente nas intenções ocultas do infeliz criador.

Se antes o psicanalista de chamava de cientista para se justificar perante o mundo, hoje clama por ser artista, mas é um artista que não cria, tão obcecado que é em desconstruir a criação de outros. Se a psicanálise de Freud ajudou a por fim na grande hipocrisia dos Vitorianos, esta espécie de psicanálise dos nossos dias fomenta a hipocrisia em uma sociedade onde criatividade é muitas vezes sinônimo de rupturas cada vez mais rápidas (e ao mesmo tempo repetições  e imitações cada vez mais difundidas) com aquilo que existia antes. Os psicanalistas pretensiosos não são os únicos e nem os mais numerosos — e isto é apenas metade da história.

(Fim da parte 1).