Logo antes de dormir é sempre a mesma coisa: sinto vontade de escrever algo e nunca acontece. Nada sai e bate uma preguiça. Olho o rádio-relógio e vejo que já passa de qualquer horário razoável de dormir — sempre, é claro, acordo como um zumbi no outro dia. Isso e existe a sensação boba de ser tudo uma grande besteira. Obviamente, a sensação é provavelmente verdadeira. A internet é, afinal de contas, uma entidade composta de lixo. As coisas realmente úteis encontram-se profundamente escondidas por detrás de anúncios de origem duvidosa, ofertas fantasmas,  pornografia e jogos online.

Toda vez que me lembro deste lugar, meu cantinho virtual pretensioso e altamente P.I.M.B.A., fico com vergonha. Ficar com vergonha é algo que vai diretamente contra ao cerne da internet tal como a conhecemos ultimanete. Se sites como o You Tube, Orkut, Facebook, Twitter e outros fazem tanto sucesso, é justamente pelo fato das pessoas que compõe o tal do “user created content” se aproveitarem da sensação de anonimidade para mostrar seu lado criativo. Lado criativo esse que inexoravelmente se transforma em um meme no 4chan e sites similares. Todo mundo quer ser celebridade! Então, ao re-examinar toda intelectualidade pura na qual consiste os 11(!) posts deste blog e ao repensar o propósito de tudo isso, sinto minha face germânica ruborizar (e digo isso sem o mínimo de orgulho; ficar facilmente vermelho apenas atrapalha o convívio social).

Este é, aliás, um dos motivos da minha completa inatividade neste blog. Somada à preguiça e às minhas neuras com relação a produzir coisas que realmente me interessem e me pareçam prazeirosas, acontece que muitos amigos próximos adotaram o Twitter.  O Twitter é relevante pois era o único canal no qual eu costumava divulgar esta pequena ilha de pretensão em meio a esse oceano de arrogância, e quando a possibilidade de pessoas que me conhecem no dia-a-dia de examinarem as besteiras épicas (nem tão épicas assim, mal ultrapassando as mil palavras em média), algo em mim me impediu de continuar e seguir a intenção original que era a de realizar algum tipo de auto-expressão criativa.

Depois de pensar muito sobre os vários por quês disso cheguei a algumas conclusões. A primeira é que eu tenho um certo asco de pessoas que sentem a necessidade de auto-expressão, como se fosse alguma coisa realmente muito importante. Na verdade, essas tentativas são de valor bastante baixo, geralmente com pretensões artísticas medíocres maquiadas com possibilidades de grandeza. Explico: a maioria é uma grande merda, cópia barata de alguém que já fez isso ou aquilo e que causou algum tipo de repercussão. Como o senso estético é algo completamente nulo para a maioria das pessoas (eu, inclusive) qualquer merda serve e desde que seja uma auto-expressão ‘honesta’, está valendo. O que nos leva a outra falácia, uma vez que é extremamente raro acontecer de encontrarmos alguma coisa criativa nesses mares revoltos. Quase tudo é um amontoado de cacoetes infantis cujos criadores consideram, erroneamente, algo de valor geral. Existe aí uma diferença crucial entre honestidade e qualidade que muita gente parece ignorar.

Para dar um exemplo, é só verificar quantas bandas ditas “alternativas” existem no MySpace e quantas dessas bandas lembram apenas versões cover de Los Hermanos, ou quantos blogs como este aqui parecem conter apenas idéias vazias. O problema da Internet é que aquilo que é sem importância ganhou outros contornos!

Fazer parte disso é uma tremenda vergonha. Mas, sei lá, talvez eu ainda continue. Primeiro tenho que quebrar a barreira da preguiça, para depois lutar bravamente contra o medo patológico de ser julgado. Todo esse processo culminaria, talvez, em um blog mais ou menos ativo, mais ou menos visitado e mais ou menos comentado. Igual ao primeiro passo na recuperação do alcoolismo, preciso admitir que, realmente, o germe da pretensão vazia encontra-se vivo em mim, para depois me desfazer dele.