Falatório me irrita. Todo mundo fala, e fala demais. Falamos, falamos e falamos. Dizemos pouco. Eu mesmo sou bastante responsável por isso: a melhor maneira de conservar algo importante em uma conversa devidamente escondido é falar sem parar. Ouvir, que é bom, nada. Fica bem claro isso. Todos querem ser ouvidos, compreendidos. Temos liberdade de expressão; posso falar sobre o que eu bem entender, da maneira que quiser e ai que quem se atrever de tentar censurar… qualquer coisa. A liberdade de falar o que quiser é um daqueles tópicos que todo mundo apóia, desde os nossos camaradíssimos P.I.M.B.As do Movimento Estudantil até o mais reacionário dos leitores de Veja.
Mas para toda ação existe uma reação e a reação específica é justamente a crescente quantidade de merda que chega aos ouvidos. Desde discussões pseudo-intelectuais que derretem aquelas partes do cérebro responsáveis pelos processos de lógica até aquele gostoso e sublime sertanejo universitário bombando daquela Toyota Hilux por detrás de vidros cheios de Insulfilm. Você sabe. Já sentiu o chão vibrar perto desses carros enquanto “Aquela outra música de corno” ou “Outra do grande comedor” de Etc & Tal ou qualquer outra dupla idiota, com nomes idiotas, músicas idiotas — que, aliás, nunca fogem de um dos temas acima listados — e com pessoas idiotas que pagam quantidades idiotas de dinheiro de pais idiotas para ir em lugares com outras pessoas idiotas para escutar o tal sertanejo. Você sabe. Eu sei. Você provavelmente gosta muito. Acha divertido; sempre gostou mas só agora está na moda; vai ’só pra dar risada’; os amigos convidaram. Basta escolher uma dessas opções comuns.
Enfim. Não é sobre o sertanejo o assunto do post, afinal. Isso é para outra hora. Infelizmente, ele está presente, como todos os outros sons e aquele falatório insuportável que acompanha qualquer tipo de aglomeração humana. É simplesmente muito barulho; muita gente querendo compartilhar com o mundo seu gosto musical. Muita gente querendo ser ouvida — é um direito! — e no final das contas tudo soa como estática. Ouvir, dar ouvidos está morrendo aos poucos. Quem sabe só sobreviva em cativeiro, dentro dos consultórios psicológicos depois de ser oficialmente declarada uma espécie em extinção. Eles até escutam, e cobram de acordo.
Aliás, ouvir já vale ouro. Certo dia, há muito tempo atrás, uma ex alguma coisa comentou que era muito gostoso conversar comigo, mas ela não sabia exatamente o por quê. Eu respondi que era óbvio: eu só dava ouvidos ao que ela tinha que dizer e ficava quieto. Obviamente, o resultado foi que eu já não era agradável, mas, em nome da ciência, ficou comprovado para mim o quão poderoso é ouvir uma pessoa e ficar em silêncio. A moça em questão realmente tinha a sensação de estar em uma conversa, mesmo uma conversa onde só uma pessoa falasse — e falava demais, como suas companheiras de gênero.
O falatório continua, como um exercício para as cordas vocais. Como um treino para que, quando aquele dia fatídico chegar, elas estejam prontas para algo realmente importante. E daí descobrem, ou não — geralmente não–, que as coisas realmente importantes não são transmitidas através de palavras. Infelizmente, o blábláblá se espalha como um vírus. Não que se deva falar apenas sobre os grandes assuntos, mas se torna bastante claro que o falatório só tem servido para deixar esses grandes assuntos de lado. Pode-se pensar nessa estática apenas como o silêncio. Nada mais é do que isso, afinal. Nem música se escuta mais. Só aquelas melodias monotemáticas da última coisa que estourou. E ninguém cala a boca e escuta. É horrível, e não é à toa que volta e meia, quando querem mostrar um personagem desses filmes estilo Um Dia de Fúria perdendo completamente a razão, a câmera e a trilha sonora fazem questão de sublinhar todo o barulho enlouquecedor em volta.
Enquanto isso, parafraseando Marla Singer (eu acho), ninguém realmente quer saber como você está quando perguntam “como você está?”. Estão esperando só a vez de falar.