Falatório me irrita. Todo mundo fala, e fala demais. Falamos, falamos e falamos. Dizemos pouco. Eu mesmo sou bastante responsável por isso: a melhor maneira de conservar algo importante em uma conversa devidamente escondido é falar sem parar. Ouvir, que é bom, nada. Fica bem claro isso. Todos querem ser ouvidos, compreendidos. Temos liberdade de expressão; posso falar sobre o que eu bem entender, da maneira que quiser e ai que quem se atrever de tentar censurar… qualquer coisa. A liberdade de falar o que quiser é um daqueles tópicos que todo mundo apóia, desde os nossos camaradíssimos P.I.M.B.As do Movimento Estudantil até o mais reacionário dos leitores de Veja.

Mas para toda ação existe uma reação e a reação específica é justamente a crescente quantidade de merda que chega aos ouvidos. Desde discussões pseudo-intelectuais que derretem aquelas partes do cérebro responsáveis pelos processos de lógica até aquele gostoso e sublime sertanejo universitário bombando daquela Toyota Hilux por detrás de vidros cheios de Insulfilm. Você sabe. Já sentiu o chão vibrar perto desses carros enquanto “Aquela outra música de corno” ou “Outra do grande comedor” de Etc & Tal ou qualquer outra dupla idiota, com nomes idiotas, músicas idiotas — que, aliás, nunca fogem de um dos temas acima listados — e com pessoas idiotas que pagam quantidades idiotas de dinheiro de pais idiotas para ir em lugares com outras pessoas idiotas para escutar o tal sertanejo. Você sabe. Eu sei. Você provavelmente gosta muito. Acha divertido; sempre gostou mas só agora está na moda; vai ’só pra dar risada’; os amigos convidaram. Basta escolher uma dessas opções comuns.

Enfim. Não é sobre o sertanejo o assunto do post, afinal. Isso é para outra hora. Infelizmente, ele está presente, como todos os outros sons e aquele falatório insuportável que acompanha qualquer tipo de aglomeração humana. É simplesmente muito barulho; muita gente querendo compartilhar com o mundo seu gosto musical. Muita gente querendo ser ouvida — é um direito! — e no final das contas tudo soa como estática. Ouvir, dar ouvidos está morrendo aos poucos. Quem sabe só sobreviva em cativeiro, dentro dos consultórios psicológicos depois de ser oficialmente declarada uma espécie em extinção. Eles até escutam, e cobram de acordo.

Aliás, ouvir já vale ouro. Certo dia, há muito tempo atrás, uma ex alguma coisa comentou que era muito gostoso conversar comigo, mas ela não sabia exatamente o por quê. Eu respondi que era óbvio: eu só dava ouvidos ao que ela tinha que dizer e ficava quieto. Obviamente, o resultado foi que eu já não era agradável, mas, em nome da ciência, ficou comprovado para mim o quão poderoso é ouvir uma pessoa e ficar em silêncio. A moça em questão realmente tinha a sensação de estar em uma conversa, mesmo uma conversa onde só uma pessoa falasse — e falava demais, como suas companheiras de gênero.

O falatório continua, como um exercício para as cordas vocais. Como um treino para que, quando aquele dia fatídico chegar, elas estejam prontas para algo realmente importante. E daí descobrem, ou não — geralmente não–, que as coisas realmente importantes não são transmitidas através de palavras. Infelizmente, o blábláblá se espalha como um vírus. Não que se deva falar apenas sobre os grandes assuntos, mas se torna bastante claro que o falatório só tem servido para deixar esses grandes assuntos de lado. Pode-se pensar nessa estática apenas como o silêncio. Nada mais é do que isso, afinal. Nem música se escuta mais. Só aquelas melodias monotemáticas da última coisa que estourou. E ninguém cala a boca e escuta. É horrível, e não é à toa que volta e meia, quando querem mostrar um personagem desses filmes estilo  Um Dia de Fúria perdendo completamente a razão, a câmera e a trilha sonora fazem questão de sublinhar todo o barulho enlouquecedor em volta.

Enquanto isso, parafraseando Marla Singer (eu acho), ninguém realmente quer saber como você está quando perguntam “como você está?”. Estão esperando só a vez de falar.

Não existe melhor reflexão sobre a guerra do que Metal Gear Solid.

Sério mesmo, e eu não digo isso apenas porque eu resolvi jogar de novo. É algo único. Citando Levinas citado por Hillman, traduzindo do inglês, “o ser se revela através da guerra”. E temos a série Metal Gear para nos mostrar como. Seria redundante chamar Hideo Kojima de gênio, então prefiro dizer que não existe melhor cineasta no mundo dos video games do que ele. Como filósofo, Kojima não é mais pretensioso do que a média.

Não é à toa que esse post demorou tanto, desde sua gestação até a sua realização. São muitos os ângulos pelos quais podemos falar sobre Metal Gear. Um deles é aquele velho caminho de enumerar coisas a evitar caso um agente da CIA/FBI/FOXHOUND mundo de um comunicador tente destruir a sua inssurreição em nome da liberdade. Algo que evite desperdiçar seus melhor homens dotados de poderes sobrenaturais fazendo-os enfrentar o elemento um a um. Outro caminho é tentar esmiuçar a complexidade psicológica de alguns personagens mais conhecidos, como o Revolver Ocelot, o próprio Solid Snake ou as ramificações dos grandes esquemas por trás dos panos que vêm ocorrendo desde o começo do século XX no contexto da série.

Mas, acredito eu, o melhor caminho é relembrar um dos temas principais da série: o que é um soldado e o que é a guerra e o campo de batalha. Meu interesse nesse tema é esse; por trás da importância das ações individuais e coletivas nos campos de batalha (e são vários que encontramos durante a série, embora o mais importante realmente seja evitar o conflito, mesmo que todo mundo já saiba que você está lá) existe uma ideologia dominante que dá as cores do conflito. O grande debate é justamente a aparente disparidade entre o que é realizado, os conflitos causados, e as idéias por trás de tudo isso. Tudo é muito humano e pessoal no campo de batalha; fora dele as idéias são impessoais e tomam proporções monstruosamente inumanas ao longo da série. De ideologias divergentes na Guerra Fria até os sistemas integrados criados para evitar tais divergências — o que paradoxalmente traz como solução única o estado de guerra permanente — as idéias que movem a trama caem por terra na media em que são desafiadas por escolhas individuais. Tudo isso temperado com uma boa dose de melodrama, como todo bom jogo de origem japonesa.

De um certo modo, o modo de apresentar o tema na série é facilmente entendida metaforicamente. Para se tornar um soldado de verdade na época da Guerra Fria é necessária uma emoção; saber matar com eficiência, antecipar os movimentos do adversário e ter sangue frio para acabar com outra vida humana não são suficientes. A emoção se faz necessária: medo, pesar, alegria, dor, fúria e esquecimento. A guerra não é lógica, os estratagemas são válidos até certo ponto, depois disso, o que decide entre a vitória e a derrota é algo que aponta para além de qualquer qualidade objetiva usada para definir o guerreiro perfeito.

A experiência da guerra e de seus horrores é ao mesmo tempo causa e efeito. Temos aí soldados arrastados pelo conflito e que perpetuam o conflito, na mesma veia das precauções contra a guerra cuja solução é apenas a garantia de guerras intermináveis ao redor do globo. Em meio ao conflito, a grande questão lançada é: o que o indivíduo pode fazer contra a grande máquina que o oprime, seja ela uma ideologia impessoal ou uma situação cujo controle não está em suas mãos?

Pelo menos é assim que eu prefiro entender.

Promethea é uma palestra.

Nada de Powerpoint, sair de fininho para fumar um cigarro ou atender o celular. Nem é o caso de boçejos, gracejos e anotações. Muito menos se trata de sentar e escutar. Promethea é sobre imaginar, sonhar e viajar através e além daquilo que é mundano, mas é também sobre o trivial.

Não estou falando de uma História em Quadrinhos qualquer, como é o caso de qualquer trabalho do Alan Moore. Promethea começa como qualquer outra história, mas mesmo assim, desde o princípio nada é usual. Como qualquer herói, Promethea já nasce especial. Seu pai, um sacerdote hermético, é morto por um grupo de cristãos. Ela, ainda criança, é resgatada por Hermes-Thoth e trazida ao immaterium onde ela se torna uma estória, e como toda estória, vive para sempre. Enquanto nossos heróis usuais se tornam metáforas, Promethea já nasce metáfora; existe apenas no momento em que é imaginada e em todos os momentos, está presente na terra em que pisamos, mas não pertence ao mundo da matéria.

O que segue é a palestra. Cada quadro é uma referência a alguma outra coisa. Tudo, ou quase tudo, tem seu por quê de estar ali retratado. Quem já leu A Liga Extraordinária entende um pouco do que eu estou falando: temos referências literárias, culturais, jogos de palavras. Enquanto A Liga abarca em seu microcosmo tudo que definia a ficção da Era Vitoriana, o universo de Promethea se debate entre tudo o que é oculto, místico e mítico em relação ao material, literal e concreto. O mundo vai terminar e Promethea é a guia desse final. Final este no qual o leitor está implicado não apenas como observador, mas também como participante.

E, claro, não é um final literal, embora Promethea tenha um número de edições limitadas. A jornada através do domínio da imaginação, aquele lugar há muito esquecido, ao invés de uma luta unilateral estilo ‘bem contra o mal’, temos uma grande exposição das possibilidades da imaginação. Um sincretismo no estilo Alan Moore de ficção. Na realidade é extremamente difícil colocar em poucas palavras, em um texto com começo, meio e fim tudo o que é essa saga pela imaginação, todas as referências e possibilidades de entender tudo o que acontece.

E tudo o que acontece não é mais importante do que a forma com que é contada. Toda página é um quadro, uma composição diferente que reflete o tema da jornada: os anúncios mundanos da cidade, com suas propagandas irônicas no fundo, a metamorfose mercurial, o encanto oceânico de Afrodite.

Tarô, Crowley, mito, cabala, imaginação e ficção. Tudo faz parte da experiência que é ler o quadrinho; já não se pode falar de algo corriqueiro, afinal. A arte em si, ao retratar a experiência desse mundo imaginal parece que foi feita justamente para demarcar essa diferença crucial entre Promethea e as outras histórias que existem por aí. O que já era de se esperar, sendo Alan Moore quem ele é, isto é, um quadrinista que escreve cerca de 200 páginas para uma revista de 60; nenhum traço está ali por acaso, sem servir à estória imaginada por Moore.

É como se, nas palavras de Hermes Trimegisto ao explicar a importância da ficção para Promethea, na ficção se escondesse um deus real abaixo da superfície da página.

Um xará meu declarou seu amor às mulheres.

Na mesma hora lembrei de uma passagem sobre Ulisses, personagem principal da Odisséia de Homero, onde, ao contrário da maioria dos heróis clássicos, a figura do feminino não aparece somente como um monstro devorador, uma donzela em perigo ou uma deusa sacana e ciumenta que não fornece nenhuma alternativa a não ser a submissão completa aos seus caprichos. Todas as figuras femininas aparecem para ajudá-lo a reencontrar seu lar, seu filho e sua esposa. A passagem diz respeito à importância não só de todas essas figuras femininas que o auxiliam em sua viagem, mas também do trunfo de Ulisses, de sua vantagem secreta com relação a todos os outros heróis que o acompanharam, que é a sua cicatriz. Ferida fechada, seu defeito humanizador.

Na Grande Semana de Conversas Derrareiras, como será conhecido esse período de tempo específico em minha autobiografia épica (ver 5, 6 e 7), cheguei à mesma conclusão que o André. Mas, ao ler sua declaração não pude evitar de pensar que enquanto nós as amamos, raras são aquelas que se amam de fato. É como se todo esse feminino e essa feminilidade que tanto nos encanta e que tanto pode nos impulsionar em nossa jornada fosse tal qual uma sombra para elas. Mas disso o Pablo já tratou de cuidar em detalhes em outro momento.

O grande assunto, na verdade, apenas perpassa o amor próprio daquelas que amamos. São raras aquelas que conheço que exibem qualquer tipo de amor próprio. A maioria já parece se concentrar mais em defeitos (delas e nos outros) para se darem ao luxo de se entregarem à própria beleza e viverem todo esse potencial inerente. Viram deusas devoradoras de si mesmas e dos homens; monstros escondidos em cavernas profundas para que algum herói venha para arrancar-lhes a cabeça e usar como troféu. O último capítulo da autobiografia épica terminou no exato momento em que me deparei com um monstro devorador, escondido em uma caverna — pela segunda vez.

Fico pensando, depois de ler a descrição dela de par ideal, muito próxima da minha própria descrição, com a exceção de que eu não estou com ela, se existe alguma saída viável (isto é, não enlouquecedora) de conviver em relativa harmonia com aquela pessoa que deseja tanto? Ou quem sabe a descrição seja só isso mesmo: um par ideal, mas impossível de acontecer de fato, senão já não é mais aquilo que deveria ser.

Triste, e não por mim.

Há apenas o silêncio no topo. Abaixo, o tapete de nuvens e a civilização com o seu barulho. Não foi fácil chegar e não é fácil ir embora vendo o começo de um por do sol.

A subida cansa, especialmente para alguém sem a menor experiência. Uma vez no topo, o cansaço some e só retorna com a perspectiva do retorno às coisas mundanas; aos pensamentos que foram deixados para trás. Mas algumas pessoas não são esquecidas nem que se escale uma montanha; apenas escalamos por elas, mesmo que seja difícil de admitir sem sentir vergonha. Lá de cima a vertigem era grande, não por medo da queda, nem por se estar muito perto do paredão mas, como Kundera colocou, do desejo de cair. A escalada, todo o caminho, era para também esquecer. Na verdade era o contrário.

Desejo de cair para ser segurado; de cair em si. Só se aprecia a paisagem se imaginamos àquela que devia estar sendo esquecida ali do lado, tornando-a presente; mais real do que as flores do caminho, do que a lama e do que as árvores. Nem o cansaço do corpo distrai o pensamento da mesma maneira que uma pedra no sapato marca cada passo.

O esquecimento às vezes é uma virtude. Evita o dispêndio desnecessário de energia. Os esquecidos não compartilham do mesmo alívio; ao contrário, a marca que aquele que é esquecido deixou provou ser apenas perecível. Nada que dure e se sustente por si só. É apenas um lembrete de nosso caráter passageiro. No final das contas, tudo reverte ao pó.

Alguns bebem para esquecer, outros escalam montanhas e outros ainda preferem fingir que esquecem, lembrando-se maquinalmente daquilo que não deveria estar ali. De qualquer maneira, devemos sempre nos lembrar que para toda subida existe o caminho inverso; a morte também espera aquilo que nasce, e assim levantamos nosso rochedo coletivo montanha acima sabendo que todo o esforço se repetirá uma vez no topo, quando o rochedo retornar ao pé da montanha. O homem torna-se o rochedo e o rochedo torna-se o homem, endurecido e sem cor.

De nada adianta se lamentar, muito menos resignar-se ao eterno flutuar dos humores do cotidiano. Endurecido mas não quebrado, havemos de nos lembrar disso. Ao invés de condenar a presença daquela que deveria ser esquecida, jogada de lado, melhor quem sabe apreciar um pouco esse fantasma que pairou durante o caminho. Sem esse peso extra, quem sabe não haveria empreendimento algum, então não podemos pensar nisso como um fardo a ser carregado, mas algo a ser conduzido ao seu devido lugar. Se a energia não pode ser simplesmente destruída, melhor transformá-la em algo diferente através da mortificação do caminho.

Das profundezas do mar ao topo silencioso, não há arrependimento. Nem as quedas e as feridas abertas parecem desnecessárias. Mesmo que tudo pudesse ter sido diferente.

Término de relacionamento.

Na verdade, é a parte 2. A parte 1 me deu vontade de ir comprar cigarro na esquina. Os produtores de Hollywood decidiram que ainda havia drama suficiente para uma segunda parte e aqui estou. Mas, como toda boa parte 2, tirando O Poderoso Chefão 2, a segunda parte geralmente deixa aquele gosto de reciclado.

Déjà vu.

Enfim.

Faltou falar, ligação, vínculo. Em nome de não haver vínculo, abriu-se mão daquilo que um relacionamento amoroso tem de bom. Mas isso não ocorreu de maneira aberta; foi algo mais ou menos latente. Estava lá, como se esperando encontrar o ponto de menor resistência. Veio de repente, mas da mesma maneira. Entretanto, algo ultrapassa e funda essa situação. Em nome da infelicidade, de um futuro que não existe, de concepções arcaicas, de medos por demais arraigados, algo que nunca começou chega ao fim.

Como um pesadelo, as revelações de atos heróicos em nome do ‘não magoar’ surgiram de todos os cantos, cercaram os flancos e tomaram conta de qualquer espaço que existia para o diálogo. No final, o derrotado apenas se dá conta de toda saliva gasta e toda a energia em vão. Cada palavra dita encontrava ouvidos surdos; cada ato era visto através da lente da desconfiança, que julgava silenciosamente e decidia o veredito sem direito a defesa. Amargamente, o derrotado finalmente se dá conta que foi tudo uma grande extensão de puro silêncio.

Através dele, tudo se torna um grande jogo de adivinhação. Mais garantido rolar um dado para saber o que estava realmente havendo. Enquanto o julgamento acontecia, havia ainda a negação de que ele sequer existia. Na hierarquia dos contratos pessoais, melhor quebrar aqueles que realmente poderiam ter feito alguma diferença para além da repetição inconsciente e inconseqüente. Vamos, então, desistir de tudo.

Há algo que supera qualquer tentativa humana de apaziguar certos monstros que se escondem dentro de nós. São alimentados pela miséria extrema: aquele desejo incontrolável em direção à própria destruição. Àquele prazer indescritível de se olhar no espelho todos os dias e ver apenas um monte de excremento; mais prazer ainda quando se chega à conclusão de que é assim que se deve ser. Quase como um reflexo, a peste se manifesta negando a vida, o prazer e a felicidade possível — e ela se encontrava ali, a um palmo de distância.

O prazer sentido se torna retroativamente em oportunidades perdidas. O sentimento se torna algo a ser domado, mas que conspira secretamente para se vingar daquele pequeno tirano que chamamos de ‘eu’. Mas todo tirano deposto acaba dando lugar a outro tirano ainda mais cruel. As instâncias se confundem e a pessoa se trai. A confusão e o descolamento da realidade, conseqüência desse tribunal secreto, dá seu veredito e declara que nada mais deve existir. Apenas aquele vazio indescritível em nome do niilismo irracional que diz que se não pode ter tudo, tudo deve ser destruído em nome desse ou daquele ideal. O ideal, nesse caso, nada mais era do que um compromisso íntimo que pressupunha a mais pronta recusa em aproveitar quaisquer oportunidades; de punir aqueles que se deixassem seduzir pelas possibilidades sem saber estarem pisando em um campo minado.

Não se via mais a beleza naquele outro cuja presença era antes tranqüilizadora. Não deveria ser vista e muito menos reconhecida como tal. Mais uma vez, a peste deixa apenas mais uma cicatriz em seu rastro. Mas homens piores já agüentaram muito mais.

Briga de casal.

Relacionamento bom, estável e desejável. Mas, por esse mesmo motivo, indesejável. Existem planos futuros, incertos e cheios de ‘e ses’ e ‘talvezes’, porém se verifica-se que é melhor trocar algo de concreto por algo etéreo e distante. Não há, portanto, nada a ser aproveitado do tempo presente a não ser a promessa de um futuro ainda não nascido. Melhor frear as coisas antes que elas fiquem ainda mais desejáveis. Há comparações com o vício em cigarro.

É complicado ter que dizer adeus à pessoa que se ama porque nesse futuro que não existe é exatamente o que vai acontecer. O outro vai ficar esperando e promessas serão quebradas — promessas pessoais, contratos subjetivos de como conduzir situações que não dependem diretamente da nossa vontade. Por isso, o freio. Caso não exista o freio, não existirá, com certeza, um relacionamento em um futuro bem próximo. De novo, não porque está ruim, mas justamente pelo contrário. Está tudo bem e por isso mesmo é necessário trazer tudo ao seu fim; caso contrário, o final inevitável vai apenas trazer uma dor que não se tem certeza, mas que é melhor evitar agora. Como nunca pegar uma avião para se ter absoluta certeza de nunca se envolver em algum acidente aéreo e mesmo assim ter seu carro atropelado por uma aeronave que saiu da pista.

Não existe relacionamento amoroso bom no qual a única constante seja a ameaça de que quanto melhor, mais rápido termina. Não por ser fogo de palha, mas justamente por dar todos os indicativos que possa durar. Durar até quando nunca se sabe, mas existe um futuro provável, porém pouco; uma fantasia de que tudo se resolverá lá, no final da linha. O objetivo final é tudo o que importa. O caminho é ignorado e torna-se rígido e seco. Mas ainda assim é melhor não parar e observar aquilo que é precioso e que encontramos por aí. Doeria demais ter que dizer adeus àquilo que nos é precioso e encontramos em meio ao deserto daquilo que escolhemos.

Fui comprar cigarros na esquina mas voltei.

A preguiça tomou conta, para variar. Isso e problemas pessoais contados e re-contados para aqueles que estavam perto. Os problemas passaram ou se transformaram, mas a preguiça continuou até agora. Nada garante que isso seja apenas aquele momento de lucidez observados em doentes mentais. Melhora, anda, fala e dá risada. Depois morre.

Mas as idéias não faltaram. Faltou mesmo é energia para abrir a página. Para acessar o blog. Para clicar em ‘Add New Post‘ e assim sucessivamente. Mas, enquanto não havia nada sendo escrito, apenas deliberado silenciosamente, houve bastante leitura, na sua maioria sobre assuntos que nunca serão tratados aqui. Às vezes, e conheço muitas pessoas assim, poderia pensar que escrever qualquer coisa depende mais de uma inspiração do que o hábito, mas todas as pessoas que eu conheço e que são exatamente assim — ‘ah, sabe, rola uma inspiração e saiu. Como toda obra de arte’ — geralmente supervaloriza qualquer coisa que saia. Como se o conteúdo fosse algo realmente relevante ou a forma realmente poética. Prefiro acreditar que é só fingimento e que ninguém se considera um gênio — aliás, de todas as biografias e relatos de pessoas geniais, nunca vi uma delas acreditar realmente que fossem gênios até a hora em que fossem reconhecidos como tal.

Mas não é esse o assunto. O assunto é que um dia me peguei tendo pensamentos pseudo-intelectuais. ‘Há beleza na melancolia’, pensei, e tive vergonha. Vergonha por realmente acreditar nisso e vergonha porque todo emo também acredita nisso, de uma maneira ou de outra. Mas, claro, como tem gente que vai em lugar da moda porque é da moda, tem gente que vai em lugar da moda porque gosta. Um dia o Heavy Metal vai voltar a ser moda e veremos nossas saudosas patricinhas e malas-sem-alça de plantão no largo novamente.

Mas enfim, pensei nisso e não me orgulhei. Também não há orgulho na melancolia e não há sentido na melancolia em um dia ensolarado. Mas às vezes ela bate, ou às vezes retornamos à ela. Na maioria das vezes quem está em volta não compreende o por quê disso tudo e, no meu caso, ainda exige que esse estado passe de uma vez. Da mesma maneira que babás dão remédios para dormir para aqueles bebês que insistem em chorar apesar de todos os gritos do mundo, tem gente que só sabe ficar indignado frente à tristeza alheia. Como se fosse fazer diferença.

Acho que o Pablo concorda comigo quando eu digo que essa reação adversa é igual à reação de certas pessoas em relação à sexualidade. Mas a sociedade é outra e o tempo é outro, então o que é reprimido é outra coisa. Mas não é sobre isso que eu quero falar também. É muito fácil ficar distraído e sair pela tangente. Da mesma maneira que é muito fácil fazer afirmações categóricas em um blog e sair ileso. No máximo é só apagar um comentário ou outro que apontam os erros do raciocínio. Mas que existe uma beleza, e essa beleza é reprimida, ou pior, transformada em commodity, embalada, vendida e consumida. Se aquela sub-espécie do punk, ovelha negra, escandalosa e pequeno burguesa chamada de ‘emo’ realmente sentisse um pouco de toda essa melancolia que gostam de mostrar para todo mundo; se conseguissem elaborar algo dentro de toda essa profundeza, acho que a humanidade poderia se dar ao luxo de ter um pouco mais de fé em si mesma. Mas não é esse o caso, então estamos todos fodidos.

De qualquer maneira, nem adianta querer alguma coisa de mais elaborado. da mesma maneira que pegaram o pragmatismo e transformaram em algo infinitamente mais egoísta e gerador de dor de cabeça do que realmente deveria ser, nossos contemporâneos pegaram o romantismo e reduziram tudo à capa de revista adolescente, devidamente disponível em todas as bancas. E olhe que isso nem era sobre o que eu queria escrever.

Salvando o tópico, o assunto original era para ser mais uma reflexão sobre esse estado onde tudo parece estar se coagulando. O ar fica denso; o tempo torna-se absoluto em sua lentidão; as pálpebras pesadas, mas sem sono. Quem sabe falar sobre não adiante. Nessas horas não se quer falar, mas também não se quer estar só, pois é justamente aí que a solidão do homem se apresenta sem os enfeites do hábito irrefletido. É preciso alguém com quem ficar em silêncio, mas não suportamos mais o silêncio da mesma maneira que não conseguimos ficar no escuro absoluto da noite. E não adianta apressar as coisas. Não existe tempo para passar e o tempo não passa.

Camus escreveu em seu diário de viagem que a única maneira de sentir o tempo passar é andar a pé, esperar em uma fila de um teatro para no final das contas não assistir ao espetáculo. É uma receita interessante, mas hoje em dia deve fazer menos sentido do que na época em que foi escrita. Se as atividades do homem moderno poderia ser definido por ‘ter pressa’ e o que fazia era apenas ‘copular e ler jornais’, acho que seria apropriado definir o que o pós-moderno faz apenas por ‘copulava e tinha mais pressa ainda’. Ler que é bom, nada.

Eis um engima: para que serve o espaço para cadeira de rodas nos ônibus?

Um cidadão qualquer pode responder que o espaço para cadeira de rodas serve justamente para uma pessoa que utilize uma cadeira de rodas possa andar de ônibus de maneira a respeitar a sua condição e garantir o direito de ir e vir. O problema é que esse mesmo cidadão qualquer pode muito bem ignorar isso; outro problema é que isso ocorre muito freqüentemente.

Ando muito de ônibus. Até demais, na minha opinião. Nada é mais irritante do que ter que esperar no ponto; me espremer entre pessoas que há muito esqueceram que desodorante não é perfume e portanto obrigatório; e rezar para que todas aquelas pessoas na porta do desembarque tenham o bom senso de me deixar desembarcar antes que elas, mesmo que elas estejam apenas garantindo que elas saiam mais rápido quando o ponto delas chegar. Tenho sorte de conseguir ficar longos períodos de tempo em pé; de ser homem e contar com o fato de que ninguém vai me encoxar a não ser pra roubar a minha carteira; e, melhor ainda, não depender tanto de ônibus quanto a maioria das pessoas.

Por outro lado, muita gente que não tem uma deficiência física qualquer ainda deve achar que ninguém está pior e por isso pode ficar em qualquer lugar no ônibus, inclusive no lugar destinado aos deficientes físicos e aos bancos preferenciais para idosos e gestantes. Já vi mais de uma vez uma pessoa em uma cadeira de rodas no meio do corredor ao invés do lugar reservado, enquanto pessoas perfeitamente saudáveis se encontravam confortavelmente reclinadas dentro do cubículo destinado à cadeira de rodas. Da última vez era um casal que se beijava e volta e meia olhava para o homem na cadeira de rodas com um leve sentimento de vergonha, nada suficiente para que eles percebessem o que exatamente estavam fazendo de errado.

Falam muito que o curitibano é mal-educado e eu concordo. Nada mais mal educado do que um animal pegando ônibus, saindo de ônibus, fazendo a permuta dirária no terminal. Daí até velhinhas (possivelmente avós amáveis) são capazes de darem rasteiras em você se você estiver no caminho da porta. Daí até um casal prefere, na falta de um banco pra sentar, ficar no lugar reservado aos deficientes. Parece que o pensamento é o seguinte: na falta de lugar pra sentar, vamos ficar aqui no espaço para deficientes, pois é mais espaçoso e poucas pessoas podem se amontoar ao nosso redor.

Daqui a pouco vão até pensar que aquele elevador que fica fora das estações tubo são deles também.

Depois que o meu fone do iPod quebrou (devido ao stress causado pelo movimento do fio dentro do meu bolso quando eu ando de bicicleta), fazer qualquer coisa que envolva grandes períodos de espera se tornou chato de novo. Andar a pé; de bicicleta; de ônibus… tudo ficou sem a trilha sonora (que inclui clássicos do Rock Progressivo) e aquela sensação de ser tudo menos parado do que realmente é se foi.

No caso de andar a pé e me deslocar de bicicleta até não é tão ruim assim. Ainda posso fumar um cigarro pra ter algo pra fazer enquanto os 40 minutos de caminhada não terminam. De ônibus, infelizmente, não há maneira de fazer com que a experiência seja mais agradável ou passe mais rápido. Existe, no entanto, uma maneira de achar algo para se prestar atenção durante a viagem, e esse algo é a conversa alheia.

Duvido muito que ninguém tenha feito isso e eu confesso fazer só isso nas minhas viagens mais recentes a bordo do nosso glorioso vermelhão. Hoje mesmo (e não no vermelhão, mas em um daqueles ônibus alimentadores cor de laranja) fiquei ouvindo uma conversa bem estranha. Aliás, antes que eu me esqueça, ouvir conversa de ônibus é uma boa maneira de medir o nível de insanidade do cidadão médio. O resultado é bem triste, como posso experimentar todos os dias ultimamente.

A conversa era entre uma mulher nos seus trinta anos de idade, conversando no celular com o que eu acredito ser outra mulher. Imagino que as duas estivessem falando sobre os problemas conjugais da segunda mulher; o assunto era homem. Parece que a segunda mulher não estava se dando muito bem com um cara e a primeira fazia recomendações para ela dar uma mudada na situação, todas elas pautadas na bíblia. O mais interessante eram as estratégias: todas envolviam reza braba e, no final das contas, não discordar dele.

Não sei se as citações da primeira mulher estavam certas, mas me chamou bastante a atenção o fato de que a recomendação principal dela girava em torno da segunda mulher rezar para, assim, não ter mais responsabilidade sobre o que ocorre depois. “Você precisa fazer uma oração e jogar nas mãos de Jesus” dizia a primeira mulher, “porque daí você reza e não precisa fazer mais nada, só esperar”. E o pior é que a primeira mulher ainda falava com tanta propriedade de que era só fazer isso mesmo que eu fiquei até um pouco assustado com todo o fervor. Queria ser tão convincente assim.

Não pude acompanhar o desenrolar inteiro da conversa porque tive que descer antes da conversa acabar. Mas se todo mundo que fizer parte da mesma igreja da mulher compartilhar das opiniões dela, posso contar que temos muitas pessoas que preferem esperar e utilizar técnicas meio passivo-agressivas como manobras para sair por cima (ou evitar sofrer de violência doméstica).

Na próxima edição: espaço para cadeira de rodas no expresso é lugar de primeira classe ou é um espaço para que uma pessoa de cadeira de rodas possa andar de ônibus? Mistério…

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